"A Shade of Gray"

By Gabriela Spinola


Já assisti a muitos episódios na vida. Cresci assistindo a "Arquivo X" com meu pai. Em todas as séries que acompanho, e acompanhei, sempre haviam episódios especiais, cujo destaque de algum membro do elenco em especial, um roteiro bem-construído, uma direção genial ou uma trama superelaborada atraía minha atenção. Mas nunca, nunca mesmo, havia assistido a um episódio como este. Vários episódios de "Criminal Minds", mesmo, já foram alvo de minha predileção pelo combo história bizarra + personagens geniais. Mas esse se destaca.

Dois raptos, seguidos de assassinatos de crianças, e daí vem o terceiro. O episódio já começa frenético, meio que correndo para explicar a situação que veríamos a seguir. Aí vem a coletiva de imprensa, que já nos dá uma base da coisa toda... O detetive lesadinho, todo mala, a família, abalada, e a BAU... errr, como sempre.

A história surpreendentemente se desenrola com uma velocidade e destreza assustadora desde que o pedófilo confessa não ter matado Kyle. Daí pra frente, só tínhamos duas alternativas - a família, ou o policial Lancaster.

Não posso deixar de dizer que foi bastante previsível a resolução de que Danny havia matado Kyle. Era simplesmente óbvio, pelo fato de que ele, desde o começo, era o único membro da família que não demonstrava nenhum sentimento, de forma alguma, ao ouvir falar da morte do irmão. Mas, contudo, é bem surpreendente imaginar que um irmão mate o outro enquanto criança. Quando adultos já seria bem mais provável, mas criança? Ainda mais ao saber que Danny forçou Kyle a engolir as peças do avião. Mal me desceria uma coxinha de frango num domingo de churrasco (inteira, de uma vez e sem ajuda da Coca-Cola, ressalto), agora, uma asinha de avião... Ai, doeu.

Prentiss recebeu o destaque que estava, há muito, merecendo. Não foi aquela coisa melancólica, meio deprimente e sentimental que estava desde "Demonology". Diminuiu aquela enorme distância que estava do resto da equipe nos últimos episódios, e, surpreendentemente, tomou uma postura totalmente diferente da esperada. E fez muito bem...

Fazendo uma relação aqui com "Cold Case" (não dava pra passar sem, né?), Prentiss tornou-se o que Lilly Rush levou as seis temporadas de sua própria série para ser. Ao contrário de Lilly, Emily nunca levou um tiro, não tem uma irmã traíra que catou o seu noivo pouco antes de se casarem. Não tinha uma mãe alcóolatra, e um pai ausente, tampouco foi espancada ou levou um tiro. Bom, pelo menos até onde sabemos. Mas, sim, teve seus traumas: envolveu-se com drogas (disse a Hotch no episódio em que o xerife Mars de Lost aparece, mas não clara o suficiente para sabermos o quão sério foi), fez um aborto (e arrependeu-se pelos 20 anos seguintes), viu o melhor amigo se autodestruir afundando no vício, e tinha pais ausentes. Assim como a personagem de Kathryn Morris, a Emily Prentiss de Paget Brewster já passou por poucas e boas - mas ao contrário desta, teve a capacidade de separar as mágoas do passado com os problemas do presente. Nem posso comparar muito (já comparei demais, nem tenho mais o que falar), porque são dois casos completamente diferentes. Mas a postura de Emily reflete na situação desencadeada pela morte de Benton: as sequelas psicológicas que sofreu, e desenterrou, a ajudaram a crescer de uma forma que Rush só começou a alcançar no episódio 6x17 "Officer Down".

Tirando a JJ, malíssima como sempre, todo mundo participou na medida certa (por mim, ela tiraria férias permanentes para ficar com o Will e o Henry, e aí eles escalavam o Aaron Eckhart para substituir a AJ Cook). Quase um "Bloodline". Até Rossi, outro do "clube dos malas", participou numa medida sustentável e não-irritante. Derek Morgan e Spencer Reid, então, nem se fala... Agiram não muito, mas fizeram muito bem. Mas o fato de este episódio ser algo único em todo o meu tempo de fã de séries deve-se a semelhança com filmes como "O Sexto Sentido' e "Apocalypse Now", dois dos meus preferidos.

A semelhança entre o episódio e os dois filmes é que todos eles possuem uma direção impecável, roteiro idem, e uma trama abusadamente óbvia mas que, ainda assim, consegue surpreender. E fazer isso em apenas 40 minutos sem deixar pontas soltas e sem irritar o espectador é algo que Lost tenta desde a sua 2ª temporada, ams nunca consegue, e aproveita-se desse "defeito" para gerar surpreendentes cliffhangers nos season finales. E isso, vindo de Criminal Minds, é uma despedida e tanto para as roteiristas Debra J. Fisher e Erica Messing.

Cheers, everybody!

6 comentários:

euseries disse...

Gostei muito do episódio, previsiel sim, mas não deixou de ser bom. Desde o primeiro momento que o policial apareceu já deu para imaginar que eles estava envolido.

Ah! Gabi, eu gosto da JJ.

Silvinha disse...

Gabi, qual foi o episódio em que a Prentiss comenta com Hotch seu envolvimento com drogas?

Todo mundo está careca de dizer isso, mas a Prentiss é de verdade uma personagem forte e especial. Ela não é do tipo que fica chorando pelo leite derramado...apesar de seus dramas, ela segue em frente e tenta ser o mais profissional possível. Isso é um diferencial em relação ao Reid, por exemplo, que fica extremamente abalado e nervoso quando os casos são pessoais demais pra ele.

Este foi um grande episódio! O Danny é do tipo que tem potencial pra se tornar um George Foyet, por isso eles tinham que pará-lo imediatamente, mesmo sendo um menino de 9 anos.

Mal posso esperar pelo próximo!

Silvinha disse...

Quanto a JJ, ela é mais ou menos pra mim. Eu esperava mais dela neste episódio, talvez um pouco mais de emoção.

Mary Joe disse...

Bom, eu acho que serie alguma sobreviva sem algum personagem "gente como a gente", e a JJ faz esse papel.
As vezes, confesso que é boazinha demais. Gostaria que ela mostrasse as garras que todos temos.
Mas... ela faz a antítese completa do mundo cão que é o trabalho deles.

Gostei de seu texto Gabriela.
Você naõ me conhece, mas sempre acompanho a comuni Criminal Minds do orkut.
Bacci mille
Maria José

Gabriela Spinola disse...

Maurício, a previsibilidade do epi foi o que o tornou ainda mais interessante. Tava na cara aquilo tudo, só que simlesmente não parecia se encaixar... xD

Silvinha, o episodio foi "The 3rd Life", da 3ª temporada, quando estão observando dois, er, "casais" adolescentes na frente de um cinema. Hotch pergunta: "Você acha que os pais delas sabem que fumam?", e ela responde "Bom, os meus não sabiam. E se me vissem vestida assim...!". Não disse exatamente o quê fumava, mas junte isso à foto (bizarra) de "Tabula Rasa", ao "simple gesture' de "Cold Confort" e à história entre ela e Matt Benton, parece meio que óbvio que ela não era exatamente um exemplo de bom comportamento...

Maria, JJ realmente é a personagem "gente como a gente" de Criminal Minds, e realmnte faria, talvez, alguma falta. Mas chega a ser boazinha demais, e isso irrita, e muito.

Gabriela Spinola disse...
Este comentário foi removido pelo autor.